Como é que, entre o barulho dos carros e o brilho constante das telas, esquecemos o sussurro das árvores e o canto dos rios? Como permitimos que o concreto e o digital apaguem as vozes antigas, aquelas que correm pela floresta e guardam os segredos do que somos? E se, para não desaparecerem, as lendas precisassem atravessar a cidade, correr pelas ruas, escapar do esquecimento?
Quem Tem Medo do Curupira, da Cia ACEG, nos leva exatamente a esse encontro improvável: a floresta invade o urbano, os mitos caminham entre os prédios, tentando ser lembrados. Cada figurino vibra como uma folha ao vento, cada gesto dos atores ecoa como o estalo de galhos sob pés ligeiros. A Iara emerge das sombras, o Saci salta entre as sombras das praças, Boitatá e Caipora dançam e rodopiam e o próprio Curupira observa, provocador e risonho.
A história das lendas que se movem é também a história da própria arte: ela precisa reinventar-se, atravessar tempos turbulentos e se lançar em novos territórios, para que a cultura não se perca. O espetáculo nos faz sentir essa urgência: ver o folclore vivo, pulsando no concreto, nos lembra que tradição e invenção caminham juntas, dançando no ritmo do imaginário.
Ao final, não saímos do teatro como entramos. Carregamos conosco a sensação de que a cultura precisa correr, reinventar-se e ser ousada, que o imaginário não se rende e que a arte, assim como as lendas, é uma força que atravessa tempos, espaços e corações, deixando rastro de magia por onde passa.
Teatro do SESI AE Carvalho – São Paulo (SP)
Espetáculo: Quem tem medo do Curupira?
Companhia: Cia Teatral ACEG
(Festival de Teatro Prêmio Eliete Fernandes)

Por Gaya, NANNU | 24 de novembro 2025
(Nannu Gaya é autora e observadora do instante. Escreve crônicas sobre arte, cotidiano e tudo o que se dissolve entre um gole e outro.)
